Conto fadariano: A Fuga de Gusmão

Segue abaixo um dos Contos Fadarianos, rascunhos feitos por mim no decorrer da minha jornada escrevendo Jardins Suspensos. Na época eu tinha 16 anos, apenas juntei as anotações. Espero que gostem!

 

Segue abaixo o relato de minha fuga dos Jardins Suspensos no fim da Primeira Era.

 Anualmente, nós Essências preparávamos uma confraternização no Palácio das Estações, para comemorar o Dia da Criação. Diferente do mundo dos humanos onde não se sabe a data certa de quando a terra foi criada, os Jardins Suspensos têm a sua própria data de nascimento: 23 de setembro. Também é o período em que se inicia a Primavera, que tem Flora como sua guardiã. Meltron criou este universo e foi expandindo até o momento certo, onde a flora e fauna encontrassem o equilíbrio. Mas isso fica em outro capítulo de meu Diário. Voltemos ao dia da grande noite de comemoração. Todas as criaturas fantásticas, fadas, duendes, druidas e elfos se empenharam em nos ajudar no grandioso evento. Austro, Flora e Yalt estavam ocupados demais para que tudo saísse perfeito. Todos estavam animados para a grande noite. Ou quase todos.

Tranquei-me em minha sala, um espaço redondo cercado de livros e algumas almofadas, além de uma sacada em direção ao sul para que eu pudesse ver o horizonte e me inspirar em minhas escritas. O sentimento de nostalgia e liberdade tomou conta de mim quando fiquei debruçado no parapeito observando o além, os pássaros seguindo para o norte e a suave brisa que faria qualquer outro estremecer de tanto frio, exceto eu.         

Naquela tarde, enquanto todos se ocupavam com as arrumações no Salão Principal, voltei a atenção ao meu Diário. Anos de pesquisa e observações registrados por mim mesmo, coisas que nenhuma outra Essência imaginaria. Os Jardins Suspensos, os fadares, e qualquer outra criatura, guardada em letras e símbolos. E ao final de tudo, separei uma página inteira para algo que futuramente poderia ser o maior arrependimento de minha vida: O Controle das Essências.

Foram cinco anos dedicados a isso, em apenas uma única folha eu encontrei uma maneira de consertar o mundo, da forma mais inconveniente, perturbadora, infame, medíocre possível. Porém eu precisava salvar o mundo em que nasci e não o mundo a qual eu achava que pertencia. Não me considerava um fadariano mesmo sendo um. Me sentia deslocado aqui nos Jardins Suspensos, quase sempre preso às pesquisas ou em reuniões de Conselho entediantes, sem muitas aventuras. Não queria perecer naquele lugar, tampouco permanecer o as décadas que seguirão longe de meus dois filhos. Há vinte anos nos Jardins Suspensos, e a ideia de buscá-los e levá-los para onde pudessem viver de verdade estava prestes a se realizar. Eu sabia o que precisava ser feito, e faria naquela noite, quando todos estivessem com suas taças cheias de vinho e barriga cheia.

Assim que fechei o Diário, com aquele sentimento de culpa e orgulho ao mesmo tempo, peguei um pedaço de papel em branco que havia ao canto da escrivaninha e escrevi a seguinte mensagem: 

 

“Encontrem-me na Floresta Meticulosa, na clareira próxima a vila Druída. Mantenham segredo e sejam discretos.   G. S.

  23 de Setembro de 1965”

 
            Enrolei o pequeno papel e amarrei uma fita azul para que não se abrisse e depois com a mão direita livre, uni meus cinco dedos e toquei a superfície da mesa de madeira maciça, afastando-os para cima lentamente. Um cilindro transparente e gelado surgiu ali e depositei a mensagem em seu interior, fechando-a com a mesma matéria. Voltei até a sacada e olhei para baixo. Da altura em que eu estava, viraria purê assim que encostasse no chão, sem falar na quantidade de rochas separando o Palácio do solo. Larguei o pequeno cilindro de gelo e com um rápido brilho ofuscante, desapareceu.

            Naquela noite, quando os portões foram abertos, fiz toda minha atuação como anfitrião da festa, cumprimento a todos com um falso sorriso no rosto, apenas esperando a hora passar. Meu informante comunicou-me por volta das nove e meia que os garotos já se aproximavam do lugar combinado. Então eu precisava ser rápido e discreto na minha saída. Dei às coisas ao salão e caminhei a passos largos em direção a minha torre buscar tudo que havia separado para levar. Foi mais rápido do que eu imaginava. Tudo estava pronto. Subi no parapeito da sacada de meu quarto, com a mochila nas cosas, e alguns papeis enrolados em forma de cone, com mapas e anotações, o Diário bem seguro no interior da mochila. Olhei para baixo e me lancei no precipício. A vantagem de ser o Senhor do Inverno pelas últimas horas compensou bastante, pois se não fosse o poder de dissolver-me em flocos de neve, meu corpo estaria em pedaços em meio às rochas da montanha do Palácio das Estações. Então deixei que o vento me levasse ao ponto de encontro. E não levou muito tempo. A velocidade foi diminuindo e fui perdendo altura até chegar a um ponto em que meu corpo pudesse retornar à forma sólida e eu cair de pé no gramado úmido.

            Hélvio e Ernesto já me aguardavam, com expressões preocupadas e espantadas. Os abracei e disse que tudo ficaria bem em breve. Eles já não eram tão crianças assim, então pedi que me seguissem e continuamos a caminhada a pé, adentrando pela Floresta Meticulosa, lar dos druidas, que a essa altura estavam com suas taças de vinho e danças exóticas no salão do palácio. Passamos silenciosamente, com pouca luz que a lua nos proporcionava quando se era possível. Ernesto perguntou para onde iríamos e respondi que estávamos indo para um lugar melhor do que aquele. Por entre troncos, galhos, pontes e riachos, nosso caminho seguia perfeitamente. Até sermos interrompidos.

            — O que o Senhor do Inverno faz longe do Palácio das Estações essa noite? – a voz veio de uma silhueta que parou dez metros a nossa frente. Embora não visse o seu rosto, sabia a quem essa voz pertencia.

            — Você sabe muito bem – respondi num tom seco. – Estou indo embora. Com meus filhos. Eles não podem viver presos aqui eternamente.

            O vulto fez um movimento com os braços, cruzando-os. Eu não tinha medo dele. Éramos amigos. Bons amigos. Mesmo com tantas discordâncias o respeito era recíproco.

            — Pois bem – disse ele, com aquela voz grave e rouca, de alguém que já não teria condições de manter-se de pé sozinho. – Você sabe que nunca deixará de ser o Senhor do Inverno, ou qualquer outro sucessor que tiver coragem, mérito e o poder do sacrifício no sangue da família Sullivan.

            Ele abriu espaço para que nós continuássemos.

            — Mas você sabe, Gusmão Sullivan – prosseguiu ele –, as consequências serão vistas em ambos os lados. Tanto no mundo dos humanos quanto aqui nos Jardins Suspensos. E eu não poderei interferir. Não até que seja extremamente necessário. Peço que tenha cautela na sua nova vida.

            E dizendo isso ele me entregou uma bolsa de viagem. Dessas que se encontram no mundo dos humanos. A julgar pelo peso e o barulho metálico, só podia ser ouro.

            — Não nos encontraremos de novo velho amigo – a silhueta respondeu, afastando-se e desaparecendo no meio das árvores. – Então não faremos aquela velha cerimônia de despedida. Siga antes que o portal se feche no espelho de Dora.

            A luz da floresta pareceu ter diminuído. Tentei avistá-lo de alguma maneira, porém nenhum sinal dele. Simplesmente desapareceu.

            — Quem era, pai? – Hélvio perguntou um tanto assombrado, olhando para os lados procurando pela pessoa que bloqueara sua passagem.

            — Apenas um velho amigo – respondi, pegando a bolsa e entregando a mochila para Hélvio. – Leve a mochila com você, filho. Mas tome cuidado com ela.

            As pessoas no Palácio das Estações a essa hora já descobriram do meu paradeiro. Mas eu não voltaria. Quando chegamos ao Espelho de Dora, dei uma última olhada, um último suspiro antes de atravessar para o mundo novo. Flora, Austro, Yalt, meus grandes amigos. Eu sinto muito. Não nos veremos mais.

            Os garotos estavam parados em frente a cachoeira cristalina. Ela exalava um brilho diferente. O portal que se abria uma vez a cada década estava prestes a se fechar.

            — Andem logo – falei empurrando-os para dentro da fonte.

            Ernesto foi na frente, seguido por Hélvio e depois eu. Uma forte luz branca e lilás, e um forte zunido quase estourando meus tímpanos.

 

            Aquelas foram as últimas horas em que fui o Senhor do Inverno, e também fora a última vez em que estive nos Jardins Suspensos. Sentia falta apenas de ficar em minha sacada, sentado bebendo uma taça de vinho e observando a natureza, os diversos tons de verde das florestas, os pássaros debandando-se para os quatro cantos, o nascer do sol ao leste e as noites de lua cheia e estrelas naquele céu escuro e limpo, sem a poluição que tem no mundo dos humanos, helicópteros, fumaça, buzina e pessoas se xingando o tempo todo. Eu sinto falta da paz. Todavia, ficar ao lado de meus filhos e vendo-os crescendo é mais valioso para mim do que algo que já vivi e hoje está apenas em memórias. Os Jardins Suspensos vivem em mim, em meu Diário, em meus pensamentos. E em breve, um Sullivan virá e será digno e fiel a mim, o bastante para ser guardião de minha obra prima: O Diário de Inverno.