O Controle Absoluto: Segundo Capítulo – “O Salão das Bruxas”

Havia prometido que lançaria semanalmente, todas as sextas-feiras, um capítulo do último livro da trilogia Jardins Suspensos. Porém, no último dia 30 de setembro tive uns problemas pessoais. Então, segue agora o Capítulo Dois da terceira parte da aventura de Benjamin Sullivan.

Lembrando que todos os direitos estão reservados e registrados para o autor da obra.

 

— CAPÍTULO DOIS —

O Salão das Bruxas

Não sei o que era pior: o frio de seis graus ou a grande quantidade de pessoas ainda na rua, que faziam com que eu ficasse muito mais atento a qualquer aproximação. As noites de inverno sempre são mais prolongadas, mas tinha a leve impressão de que não era nem meia noite.

Enquanto eu passava as pessoas esbarravam-se em mim, tocando meu braço ainda machucado. Elas passavam carregando de tudo, desde mantimentos a roupas para se aquecerem do inverno. Alguns até aproveitavam para saquear eletrodomésticos, mesmo sem eletricidade. Pessoas dormiam ali mesmo, faziam fogueiras em lixeiras vazias, sujavam as vias, espalhando jornais velhos e pacotes vazios de alimentos. Um completo caos. Acelerei o passo e desci a rua, indo em direção às pontes, quando algo me chamou a atenção. Sobre o meio feio havia o mesmo jornal, numa pilha, espalhados, mas com a mesma manchete: “CAOS FADARIANO PREDOMINA A AMÉRICA DO SUL. SERIA ESTA A CHAVE PARA O INÍCIO DE UMA GUERRA?”

Peguei a primeira folha e me aproximei de um foco de luz vinda das chamas na esquina logo acima. Eis a matéria:

“O que muitos achavam ser apenas uma pequena revolta municipal acabou alavancando um intenso alarde nacional. Quando um grupo de pessoas denominadas ‘FADARES’ foi descoberta na capital, a população entrou em colapso de imediato, protestando em frente à casa do governador e até mesmo alarmando as forças militares. Não muito confiantes, os próprios habitantes de Florianópolis desencadearam uma guerra contra os essa raça que se esconde pela cidade. Alguns deles mostraram-se extremamente perigosos enquanto outros deixaram a cidade evitando problemas. Para quem não sabe, os ‘FADARES’ são semelhantes aos seres humanos, exceto por possuírem dons, habilidades sobrenaturais capazes de ferir os mais vulneráveis da nossa espécie. Suas marcas principais são uma corrente de prata e a cor de seus olhos, que se diferenciam a cada dom que o clima e o ambiente oferece à criatura. Essas são fontes confiáveis de alguém que viveu muito tempo com um grupo fadariano e que não prefere se identificar por motivos de segurança, sendo que o mesmo é humano puro. Mas o que fez com que essa bolha estourasse? Além do pesadelo iniciado pela exposição dos ‘FADARES’, fomos apresentados também a um grupo que se autodenominou CAÇADORES. Até o momento não sabemos o motivo pelo qual assim são chamados, mas este grupo se pôs entre humanos e fadares. O que se sabe é que esse grupo e os FADARES são da mesma raça, mas não temos informações concretas sobre a razão dos seus conflitos. A exposição deste grupo causou mais pânico na sociedade e o número de revoltas e pedidos de segurança aumentaram. Só que estes Caçadores não tão pacíficos quanto os ‘FADARES’. A maior parte das ruínas foram causadas por estes e nem mesmo as forças armadas resistiu à rebelião. Florianópolis não foi a única cidade afetada por ataques de mutantes. São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Buenos Aires, Porto Alegre, Uberlândia (Minas Gerais), Lima (Peru), Montevidéu (Uruguai) também houveram relatos a respeito de FADARES e grande parte das cidades se encontram destruídas. O que se especula é que o governo junto aos demais países afetados, planejam algo que possa trazer a paz de volta ao nosso continente, ou pode ser o fim deste gigante pedaço de terra.”

A matéria não terminava ali. Reparei que faltava um bom pedaço dela, mas todas as cópias estavam da mesma maneira. Como se alguém não quisesse que o restante fosse divulgado. No cabeçalho do jornal, datava 04 de Junho, apenas algumas semanas atrás. Terminei de ler e fui até a fogueira eliminar aquele pedaço de papel inútil. Gostaria de saber quem foi o jornalista que publicou esta matéria. A forma como ele grifava a palavra “fadar” pareceu-me completamente racista, forçando a população temer a minha espécie. Ouvi um dos senhores reclamar, mas o ignorei, dando as costas e descendo novamente a rua.

Passei pelo Mercado Público, uma construção açoriana, no centro da cidade, onde um grande número de lojas, bares, peixarias e pessoas se concentram todos os dias. Ou costumavam frequentar. O local agora cheirava a cão molhado e bafo de bêbado. Atravessei a rua e me dirigi até o TICEN, o terminal de ônibus coletivo da cidade. Outro ponto ocupado agora apenas por alguns garotos e garotas da mesma faixa etária que a minha, próximos à plataforma A. Passei escondendo meu rosto, e continuei até chegar ao chafariz em frente ao bloco C e D, onde me sentei no mármore gelado e úmido, encostando-me numa das vigas de uns quatro metros de altura, cinza e mais fria que o mármore.

Não demorou para eu me esconder abaixo do mármore, no canto mais afastado da estrada. A voz de Léo ecoou no silêncio. Espiei entre dois pilares o momento em que ele empurrou aquele grupo de garotos, derrubando dois deles. Uma figura baixa e magra de um homem o acompanhava e deduzi que fosse a pessoa que conversava com meu irmão antes da minha fuga.

— Como você tem certeza de que Benjamin veio nessa direção? – perguntou o homem, e ouvi o barulho de lata sendo chutada. – Ele pode ter ido para outro lugar. Você me disse uma vez que o garoto adorava surfar na região da Joaquina.

— E o que tem lá? – Léo indagou com rispidez.

— Aquele amigo dele, Renato Bugger, mora naquela direção – o homem disse e espiei no momento em que se encolhia a medida que Léo aproximava-se dele. – Talvez o garoto tenha corrido para lá e se escondido com a família do amigo.

Léo parou e desviou sua atenção do companheiro. Escondi-me a tempo ou então seria descoberto. O que o homem disse fez com que uma luz clareasse minha mente. É óbvio que os outros estão escondidos e mais provável que estejam alojados em algum lugar seguro e conhecido.

— Talvez… – Léo falou, mais para si do que para o outro. – Não conhecia muito bem os idiotas com o qual meu irmão costumava andar. Como você sabe disso, Saulo?

Ouvi o som de papel e vi Léo arrancar algumas folhas das mãos de Saulo que tornou a se encolher. Encostei-me ainda mais na pedra fria, bem às sombras, imaginando por quanto tempo mais os dois ficariam ali.

— Isso é o que estou imaginando? – Léo perguntou lentamente enquanto folheava sem parar. O barulho da grade balançando deu a entender que não gostara muito do que vira ali. – Onde foi que você conseguiu essas informações?

Sua fúria era tanta que algumas pessoas do lado oposto da via pararam o que faziam para prestar atenção.

— Você sabe que algumas informações desta imundice, caindo em mãos erradas, podem destruir todo o plano? Seu imbecil!

E largou Saulo que caiu no chão imundo e úmido do terminal, passando pelos curiosos e atravessando a faixa de pedestres, sumindo em meio ao nevoeiro que começava a se formar. Saulo ajeitou-se e logo foi atrás do amigo. Aguardei alguns minutos até que a barra ficasse limpa e eu pudesse sair de onde estava. Me apoiei com o braço machucado e uma fisgada percorreu até a altura do ombro. Não havia mais ninguém ali, a não ser alguns mendigos que dormiam nos bancos das plataformas e sequer acordaram com a balburdia recente. Cheguei até onde Léo e Saulo conversaram e notei uma folha caída, mas era apenas um pedaço velho e sem importância de uma liquidação passada.

Agora meus pensamentos entraram num dilema quando sai do terminal em direção às pontes. Uma parte de mim queria vasculhar mais pela ilha a procura dos meus amigos, mas com Léo e os demais Caçadores a minha procura ficava realmente difícil. O continente era a única maneira de estar a salvo e encontrar uma solução para os meus dons. Pensei em treinar como o diretor Camilo fez com meu pai. Quem sabe algum fadar me ajude assim que chegar numa colônia segura.

Pus a mão no bolso toquei a pedra mística negra ao lado da caixinha que Ciça me entregou. Era a minha bagagem para chegar a qualquer lugar longe dali. Mamãe não ficaria muito satisfeita com Léo por ter me deixado escapar. Queria estar longe o bastante para não sentir a fúria da bruxa quando este momento chegar. Caminhei em direção as pontes logo à frente, e atravessaria pela passagem de pedestres que há abaixo de uma delas. Quando cheguei na rampa de acesso, ouvi um assobio baixo. Não havia ninguém e tornei a andar, mas o assobio se repetiu. Uma pequena luz artificial passou em meu rosto e vinha do meu canto esquerdo, próximo ao mar.

Hesitei por um instante, levando a mão ao bolso novamente e segurando a pedra mística. Sem dons, eu de alguma forma pensei que ela me ajudaria numa situação de perigo. Desci o elevado e fui lentamente na direção da luz da lanterna. A figura estava parada próximo a uma construção agora abandonada, mas que antes servia como um tipo de autoescola e arquibancadas para torneios de remo.

— Não se acanhe, meu jovem – disse o homem e a julgar pela voz já tinha certa idade. – Não tenho a intenção de machucá-lo e sim tirá-lo daqui.

Cheguei ainda mais perto, onde pude sentir o cheiro de peixe frito que o homem provavelmente comeu pouco antes. Ele desligou a lanterna, e não conseguia ver muito bem a sua aparência, exceto que era mais baixo do que eu e usava um chapéu de palha.

— O senhor sabe para onde quero ir? – perguntei num tom de desconfiança enquanto o velho já se antecipava, indo na direção do barco encostado às pedras.

— Não, mas eu sei.

A figura de uma pessoa surgiu ao lado da construção e mesmo no escuro sabia a quem pertencia aquela voz. Ela se aproximou e me deu um forte abraço. Até ignorei a dor quando as mãos suaves da garota passaram no local machucado.

— Luísa! – exclamei, sentindo um grande alívio por ter alguém conhecido ali. Quando nos soltamos vi que ela não estava sozinha. – Meu deus, Carlo!

— E aí maninho, como é que tá?

Desta vez o abraço de Carlo fez com que eu me afastasse um pouco quando meu machucado fisgou um pouco. O velho acendeu a lanterna e ambos viram meu estado.

— Um trapo velho, mas sobrevivo – respondi olhando para ambos. – Como chegaram aqui? Onde estão os outros?

Mas não era isso que eles prestavam atenção. Luísa aproximou-se novamente e tateou meu pescoço em seguida segurou meu rosto com as duas mãos para me analisar.

— O que realmente aconteceu com você, Ben? – ela perguntou num tom preocupado. Agora checando minha temperatura, meu pulso, meu coração…

— Vamos esperar para chegarmos na Taberna e então o Ben conta para todos a sua história, tudo bem, Lu? – Carlo a segurou e me olhou seriamente e ainda mais preocupado que a garota.

Os dois seguiram até um pequeno barco preso nas pedras. O velho já se posicionou ao centro, com um par de remos, Luísa sentou-se na parte de trás do bote. Carlo desenrolava uma corda com cheiro de algas velhas de uma pedra. Subi, quase escorregando, e entrei no barco, onde sentei num banco de aparência podre. Carlo soltou a corda, puxou para dentro do pequeno barco e sentou-se ao lado de Luísa.

— Para onde estamos indo? – perguntei a Carlo, agora que o barco seguia ao sul, e afastando-se das pontes, do centro, do perigo. – Como vocês sabiam que precisava de ajuda?

— Hélvio recebeu um comunicado de Ciça avisando que você precisava ser tirado de Floripa o quanto antes – Carlo disse, olhando para Luísa que ainda me encarava, pálida. – Você recebeu um desses, não é mesmo?

Ele tirou do bolso uma caixinha vermelha, semelhante a minha e abriu. Dentro dela havia uma lâmpada verde acesa. Carlo a fechou quase no mesmo instante.

— Precisamos ser cuidadosos – ele continuou, guardando a caixinha. – Isso é um localizador. A lâmpada estava fraca e emite um sinal quando o outro localizador está perto. Simples, mas genial, não é mesmo?

Não prestava atenção no que dizia, mas sim a direção que o pescador nos levava. -Se passaram uns cinco minutos, e a impressão que dava era de que não saímos do lugar. O ritmo lento fazia minha ansiedade aumentar.

— E os outros, como estão?

Tentei tomar outro rumo da conversa, na esperança de o tempo passar mais rápido. Meus olhos iam de Luísa e Carlo para continente. Um tremor passou pela minha espinha, sem explicação.

— Não podemos falar nada – disse Lu num tom meio preocupante, olhando brevemente para Carlo. – Pediram apenas para resgatá-lo.

— E deixaram vocês sozinhos com tudo isso acontecendo? – insisti, desconfiado.

— Temos proteção – Carlo respondeu apontando para a água.

Girei meu corpo para observar o mar. A princípio achei que fosse uma brincadeira de Carlo e que ele pegaria um pouco de água e jogaria na minha cara, até o momento em que um par de olhos azuis me encarava submerso, até seus cabelos se diferenciavam da cor escura do mar, num tom azul neon. Trivo nos guiava ao invés do pescador, que já guardava seus remos para dentro do bote.

— Acho que não preciso me esforçar mais – falou ele.

Tentei retratar um sorriso em meu rosto, porém não consegui reproduzi-lo muito bem. Os olhos de Trivo iam desaparecendo, e o barco deu um leve balanço mesmo sem qualquer agito no mar.

— Estou mais tranquilo agora – falei, virando-me mais uma vez e soltando um suspiro.

— Te disse que era de boa, cara – Carlo tentou me animar, dando um tapinha no meu joelho. Ele esticou o pescoço, olhando a cidade ficar distante. – Logo estaremos de volta.

Mas a impressão que pairava no ar não convencia nenhum pouco.

— Só preciso saber que todos estão realmente bem – continuei, e o velhote começou a cantarolar baixinho do lado oposto. – Quero muito saber se Melissa está…

Foi quanto me dei conta. Como pude ter sido burro de ter me esquecido? O frio na espinha crescia; o frio externo também. Com tudo que acontecera desde a volta dos Jardins Suspensos, a traição de minha mãe e Léo, a Corrente sendo tirada de mim, eu me esqueci de algo muito importante: Melissa.

— Merda – eu baixei minha cabeça e cobri o rosto com as mãos. – O que eu fiz?

— Benji… – Carlo chamou minha atenção, pois sua voz parecia mais próxima e num tom de profundo pavor.

O frio na espinha ficou mais intenso, somando com a leve dor no peito que sentia. Os Jardins Suspensos destruídos e a deixei em Sempreverde. Como pude? Eu comecei a tremer, e meus olhos mais uma vez encheram de lágrimas.

Parecia que o barco mudara de direção. Luísa esticou sua mão para o mar e chama por Trivo, mas sem resposta. Tentei ajuda-la, mas sem motivo. Estávamos indo para o continente, passamos por Coqueiros e agora o barco seguia para a praia do Itaguaçu.

— Meu Deus!

Eu sabia o que viria a seguir. E sabia exatamente o responsável por isso.

Todo mundo conhecia a história da praia de Itaguaçu, em Coqueiros. Pelo menos quem nasceu e foi criado na região. Velhos contos que assim como fadas, elfos e dragões eu pensava não existir.

O barco seguia como se um gigante imã o atraísse para lá. Já podíamos ver as grandes pedras na orla do mar, por causa da pouca luz, pareciam fantasmagóricas e muito assustadoras. Carlo olhava de mim para Luísa que retribuía numa expressão de choque. Quando o bote se aproximava mais, vimos pessoas na areia nos aguardando.

Por um momento eu tive que deixar a minha estupidez de lado e pensar em Melissa outra hora. Já havia causado problemas demais.

Carlo e Luísa se abaixaram no barco, assim como o pescador que se encolheu e parecia estar numa oração própria. Eu permaneci sentado, com todos os meus músculos travados.

O som das vozes ficava mais claro para nossos ouvidos na medida em que o bote chegava à areia. Ao invés de postes acesos, tochas. Um grupo de cinco pessoas reuniu-se em volta de Susana, que mesmo de longe, notava o ar de deboche e vitória novamente, com o Diário nos braços. O barco parou entre as grandes pedras e ficamos paralisados. Até que por fim, depois do que pareceu uma eternidade, eu consegui me levantar e saí do barco. Tentava disfarçar para que minhas pernas não tremessem tanto e fui caminhando até ficarmos cinquenta metros um do outro. Estávamos ali. Ela e eu, no Salão das Bruxas.