[SAIU] Leia o primeiro capítulo de O Controle Absoluto!

Como prometido, a partir de hoje estarei postando semanalmente um capítulo do terceiro livro da série Jardins Suspensos. Abaixo, o primeiro capítulo de O Controle Absoluto. Lembrando que todos os direitos estão reservados e registrados para o autor da obra.

— CAPÍTULO UM —

A Pedra Negra

As ruas da cidade que costumavam ser iluminadas por altos postes com lâmpadas douradas agora haviam sido substituídas por pilhas de carros e carcaças dos mesmos, espalhadas em cada esquina. Os altos prédios que ficavam frente à Beira Mar Norte agora jaziam escuros. Os moradores que preferiram permanecer ali não tiveram opção senão o uso de velas, na qual dali da Rua Bocaiúva eu podia ver suas silhuetas tremeluzindo por detrás dos vidros.

O forte cheiro de gasolina pairava por qualquer canto. Enquanto Léo me carregava com facilidade, pois tinha braços largos, eu vomitei duas vezes num percurso que levara não mais que nove minutos. Quando finalmente chegamos a frente da residência Sullivan, os portões foram abertos e a voz fraca e esganiçada de Ciça chegou a meus ouvidos.

— O que vocês fizeram com ele?

Léo não respondeu. Apenas passou reto por ela em direção à porta aberta. Se ouviam os passos dela no encalço e quando passamos e a porta foi fechada. Ela insistiu novamente.

— Ben precisa descansar. Precisa de repouso e uma boa alimentação.

Meu irmão então parou pela primeira vez ainda no hall de entrada e virou-se para Ciça. Suas pálpebras tremiam como um cacoete e seus lábios crisparam antes de abrir a boca.

— Então porque você continua aí parada? Vá logo preparar algo para comermos. – Sua voz saiu fria como o rígido inverno antártico, e acrescentou ao vê-la ainda imóvel. – Depressa, sua velha!

Esta última frase soou alta e amedrontadora. Nunca o vi daquele jeito, nem mesmo quando discutiu com Endros. Ciça assustou-se dando um pulo e levou a mão próxima ao coração. Sem dizer mais nada, apenas olhando para mim com ar de tristeza, retirou-se para a cozinha. As luminárias estavam todas apagadas e agora os castiçais sobre as mesas de mogno cheios de vela clareavam o ambiente. Sem eletricidade, conclui que todos os ambientes agora se tornaram medievais.

— Você consegue tomar banho sozinho, não é? – ele perguntou a mim, baixando a cabeça. Eu não o respondi. – Ótimo. Te levarei até o seu quarto e você poderá se lavar e colocar uma roupa limpa e descente.

Dizendo isso ele continuou, subindo o lance de escadas. Pelo que enxergava naquela posição, tudo estava limpo e no seu devido lugar. Não havia sinais de luta ou manchas no carpete ou paredes. A cada intervalo dos quadros nas paredes do corredor do piso superior havia duas velas presas a um suporte dourado. O mesmo corredor onde ocorrera o maior dano na hora de nossa fuga. Mamãe certamente reformou tudo enquanto estivemos fora. O cheiro de casa continuava o mesmo. Passamos pelos quartos de visitas, o de papai, até que chegamos a porta de acesso ao sótão. O meu quarto. Ali, Léo me largou deixando-me de pé pela primeira vez e cortando o cipó que me prendia.

— Ficarei esperando você aqui na porta – disse ele e apontou o indicador direito para mim. – Nada de tentar escapar, ou eu pegarei pesado na próxima.

Ele abriu a porta e me entregou minha mochila. Olhei para cima e comecei a caminhar. Me sentia fraco demais, com uma grande ânsia de vomitar uma terceira vez. A cada degrau que eu subia meu estômago dava cambalhotas e meu cérebro pulsava no ritmo do meu coração. Eu continuava sangrando bastante e deixava meus rastros pela madeira até abrir a porta de cima. Virei-me para baixo e vi Léo me encarando com ar de prazer, apreciando meu momento de dor e o dele de glória. Quando passei vi um pacote de velas e uma caixa de fósforos sobre a mesa de cabeceira. Larguei a mochila ao lado da cama, abri a caixa de fósforos, risquei um dos palitos na caixa e acendi uma das velas do pacote. Fiz isso com mais duas para que eu pudesse ter uma visão melhor do cômodo.

Tudo estava como da última vez que o vi; uma bagunça total sobre a cama, roupas e lençóis amontoados de qualquer maneira. Algumas camisetas que comprei no verão passado e sequer usei jogadas pelos quatro cantos, minha mochila que costumava carregar meu material, presa num gancho na lateral do guarda-roupa um tanto velho, com as duas portas escancaradas mostrando uma bagunça tão semelhante quanto o restante do quarto. Me aproximei para fechá-lo e o espelho frontal de uma das portas refletiu a minha imagem sombria devido à fraca luz.

Encarei a mim mesmo e foi preciso pegar uma das velas acesas para ter absoluta certeza de que o que eu via era realmente real. Tirei minha camiseta encardida e suja de sangue e a joguei num canto e depois tornei a me olhar naquele espelho. Havia cortes e hematomas em meu corpo devido a força de Léo com aqueles cipós e meu braço ainda sangrava pouco. A marca da Corrente em meu pescoço também era visível num tom avermelhado. Mas o que me deixou mais assustado – não é bem a palavra, mas usarei mesmo assim – foi novamente a mudança de meus olhos. Eles não tinham mais aquele tom alaranjado; voltaram ao castanho natural.

Passei os minutos no banho pensando em tudo. Enquanto a água fria do chuveiro escorria pelo meu corpo comecei a me perguntar onde os outros estavam e porque não deram sinal algum ainda. Só espero que estejam bem e por perto. O sabonete que usava permanecera ali e quando o passei pelas feridas senti meu corpo cambalear um pouco. Não gritei. Encostei minhas duas mãos na parede úmida e baixei a cabeça, deixando apenas a água lavar meu cabelo. Algumas lágrimas escaparam de meus olhos. Mentira. Acho que passei uns cinco minutos parado, apenas chorando. Como se a ficha tivesse acabado de cair.

Quando cheguei no quarto novamente, parcialmente seco, peguei uma peça de roupa sobre a cama e me vesti lentamente. Era difícil esticar os braços para colocar a camiseta por causa dos ferimentos. Sentei-me para calçar uma meia e o tênis quando a janela do sótão se abriu sozinha. A grade de madeira com as vidraças quebradas bateram na parede, mas não havia vento algum do lado de fora. Calmamente eu fui até ela e dei uma rápida olhada lá para fora. Agora a cidade parecia tranquila, silenciosa. O jardim da residência era quase invisível devido a escuridão total, mas gostaria de passear por ele novamente. No prédio ao lado eu pude ver uma garotinha de uns seis anos me espiando pela janela, segurando uma vela vermelha. Ela acenou timidamente para mim bem na hora que sua mãe a puxou para longe de vista e o aposento escureceu. Ergui o braço direito pare fechar a janela, sentindo aquela dor no peito e bem na hora que me virei uma soma de assombro e euforia tomou conta de mim.

A pedra mística negra flutuava a dois centímetros do meu nariz. Ela afastou-se lentamente ao mesmo tempo em que uma fumaça branca, um tanto densa, começava a sair de seu interior. A fumaça foi saindo e ao invés de se dissipar pelo ar, ela continuou parada, tomando forma até que atingisse mais ou menos o meu tamanho. A fumaça transformou-se num corpo feminino, sem rosto, mas podia-se ver até os longos cabelos fantasmagóricos dançando num ritmo lento. Ela começou a caminhar na direção da fenda feita pelo Diário e hesitante, eu a segui.

O cheiro estranho continuava dentro daquela sala. A vela que eu carregava mostrava o escritório exatamente como da última vez que o vimos durante a fuga e nossa ida aos Jardins Suspensos. Vovô Gusmão me encarava naquele quadro velho que por detrás escondia tal portal de acesso.  Ou será que foi fechado após a destruição? Olhei ao redor procurando o fantasma e o vi próximo à escrivaninha do vovô. Sobre ela encontrava-se todo tipo de bugigangas: óculos de três lentes, um molho de chaves estranhas, rolos de papel amarelado, lacrados com um laço vermelho, rascunhos, livros antigos, e até mesmo a pata de um coelho repousada num pote com um líquido verde. Também havia duas pilhas de papel antigo e sobre uma delas a miniatura de um globo terrestre. Eu prestava bastante atenção naquilo que não percebi naquele tempo e acabei esquecendo que eu era observado pelo fantasma. Quando ergui minha cabeça, nossos rostos se tocaram e senti o frio mais intenso de todos.

Eu vi aquela mão pálida atravessar o globo sólido e retirar algo que não conseguia ver dali. Meu corpo dolorido agora sentia o frio desde o momento em que nos encostamos. Ela esticou sua mão e não baixou até que eu abrisse a palma de minha mão livre. Um pequeno pedaço de papel caiu e eu o segurei. A pedra mística girava em anti-horário sobre a cabeça do fantasma que levou o indicador a altura de onde deveria haver uma boca. Num sopro vindo de não sei onde, a figura desapareceu, e a pedra preta caiu com um pequeno eco no chão de madeira. Me abaixei e a peguei antes de voltar ao quarto.

Sentei na cama, ainda tentando entender o que acabara de acontecer ali. Não foi nenhum sonho. Tanto o bilhete quanto a pedra mística seguros em minha mão. Larguei a vela sobre a mesa de cabeceira antes de desdobrar o papel e guardei a pedra no bolso da calça. O papel estava dobrado em dois e não tinha nenhuma mensagem, nem iniciais ou algo que eu compreendesse. Apenas um grupo de números:

-27.87953, -48.577-7

Ouvi o ranger dos degraus e escondi o papel no bolso da calça. Léo apareceu no sótão, sua sombra tremeluzia na parede de acordo com a chama da vela que se movimentava por causa do vento que vinha da janela semiaberta. Ele olhou ao redor do quarto a procura de algo estranho e voltou sua atenção a mim.

— O que você andou fazendo?

— Apenas tomei banho – respondi em tom seco, mantendo contato visual com ele.

Léo ficou me encarando por mais alguns segundos. Notou que meu braço ainda sangrava e foi até a gaveta do meu guarda-roupa, pegou uma fronha velha ao fundo e a rasgou.

— Pegue – disse ele friamente voltando até mim e passando o pedaço de pano em torno do meu braço quatro vezes. – Assim não vai sujar a toalha de mesa da mamãe. Agora vamos descer. O jantar está servido.

Desta vez ele não conseguiu me olhar diretamente olho no olho e imaginei se havia um pingo de pena ou bom senso dentro daquela cabeça enquanto fazia tudo aquilo. Sem dizer mais nada ele virou-se e desapareceu pela porta, descendo as escadas do sótão. Podia escutar seus passos se afastarem antes de eu retirar o papel que aquele fantasma me entregou. Ainda não faziam sentido aqueles números e teria de perguntar ao papai se ele tinha conhecimento daquilo. Só não sabia quando voltaria a vê-lo.

Quando cheguei ao corredor olhei com mais atenção o lugar onde Iago e eu tivemos nossa última conversa antes de morrer. Bem ali, encostado na parede que dava à única janela. Abaixei-me com dificuldade e foi aí que notei uma pequena mancha de sangue no carpete. Ela seguia até a porta à frente, como se ele tivesse sido arrastado para dentro do quarto. Olhei para a esquerda, na direção oposta e confiante de que Leonardo não subiria até aqui, me levantei e girei a maçaneta prateada com o brasão da família. Trancada.

Tentei girar mais duas vezes, forçando-a para frente e não adiantava, até me dar por vencido e seguir pelo corredor. A casa inteira parecia mais sombria com aquela escuridão e o bruxulear das velas em castiçais de prata. No meio do caminho já conseguia ouvir a voz de Leonardo no andar de baixo. Pelo visto conversava animadamente com alguém.

— Você sabe muito bem que os negócios não estão indo como planejado para eles, não é mesmo? – uma voz desconhecida falou, nos intervalos dos tilintares dos talheres. – Cícero se deu mal quando tentou nos vender falsas Correntes.

Parei atrás das paredes, ao lado da porta, de modo que nem Léo ou quem quer que esteja com ele pudessem me ver. Léo respondeu:

— Soube que nas últimas semanas o número de ataques contra os fadares aumentou e suas Correntes foram arrancadas para serem vendidas no mercado branco. A prata dela pode valer mais do que as casas da zona nobre dessa cidade, sem contar a vantagem de que quanto menor o número de fadares, maiores as chances de sucesso no domínio geral e controle aos humanos.

O homem que conversava com Léo assobiou, espantado.

— Não é de se espantar que fadares e caçadores debandaram-se para longe da ilha. A nossa única vantagem é que desde a nossa exposição os humanos temem se aproximar.

— Por isso que devemos mostrar a eles que estamos no mesmo lado, erradicando o maior número possível de fadares – Léo interrompeu o homem com quem conversava. Houve uma pausa e o som de líquido depositado numa taça. – Só precisamos de iscas e executar o serviço em frente a uma multidão.

Alguma coisa tocou em meu ombro e senti meu coração chegar na garganta. Ciça estava parada ao meu lado com uma expressão de medo, e carregava uma caixinha nas mãos. Ela parecia um tanto perturbada e seus olhos mantinham-se fixos em mim.

— Você precisa sair daqui – ela murmurou. – Rápido, antes que seja tarde!

Virei em direção à porta bem ali e depois voltei para Ciça. Léo ainda conversava com o sujeito na sala de jantar e o assunto dos dois parecia não acabar. Ela então segurou minha mão e a senti gelada.

Nos afastamos um pouco, para um ponto mais próximo ao hall de entrada, para que nossa conversa não ecoasse através do silêncio não costumeiro dali.

— Se eu partir, você virá comigo – disse apertando aquela mão envelhecida. – Não aceitarei um “não” como resposta.

— Ah, Benjamin. Se você soubesse o que tive que passar nessa casa após a fuga de vocês… – então Ciça deixou escorrer uma lágrima em seu rosto. – Sua mãe mostrou-se uma verdadeira vaca e totalmente má. Jamais imaginei que eu fosse passar por isso. Hélvio nunca permitiria uma coisa dessas.

— Nem eu permitiria, Ciça – respondi firme. – Papai também não e prometo que vamos consertar as coisas. Foi meu erro ter ficado tanto tempo fora. Assim como também o erro de ter confiado demais em algumas pessoas.

Ciça então soltou minha mão. Ouvimos o barulho de cadeiras se arrastando, mas as sombras de ambos não apareceram pela entrada da sala.

— Você precisará disso agora que está sem seus poderes – ela tornou a segurar minha mão e depositou aquela caixinha vermelha, semelhante àquelas em que se colocam anéis. – Seu pai deixou isso sob meus cuidados, depois que você se perdeu naquela viagem a São Paulo, se lembra?

Como podia me esquecer. Foi quando eu tinha cinco anos e fomos a uma feira sobre sustentabilidade. Tudo bem que na época eu não tinha noção alguma do que aquilo significava, muito menos o que seria uma feira. Mas enquanto meu pai conversava com várias pessoas importantes, Léo começou a implicar comigo e comecei a correr atrás dele. Quando percebi, eu estava fora do pavilhão, cercado de gente estranha e foi mais do que assustador. Papai só conseguiu me encontrar seis horas depois do ocorrido, isso porque uma senhora havia tomado conta de mim e um dos estandes do lado externo.

— Abra-a apenas quando estiver num lugar seguro – ela disse, alerta. – Seu pai saberá onde encontrá-lo.

— Só espero encontrá-lo antes de mamãe.

E assim, com última retribuição de olhares, eu fui até a porta e a abri com cautela. Sabia que Léo ficaria furioso quando descobrisse sobre minha fuga. Ciça me olhava dali, e só me preocupava agora era sua segurança e conhecendo o meu irmão eu tinha certeza de que ele não iria tão longe assim. Não… na verdade, após o que ele fez comigo esta noite, Léo tornou-se um tipo de estranho para mim. Um inimigo, acima de todos os que passaram por mim. A noite fria bateu em meu rosto quando me guiava para fora, na direção oposta da Beira-mar Norte, seguindo para o continente. Como ouvi Léo dizer que muitos fadares se bandearam para aqueles lados, seria ótimo encontrar algum rosto conhecido.